Financiamento Climático ao Brasil em 2023: Quem financia, quais setores recebem e como os recursos são aplicados?
Por Andressa Lima (UFPA/ CFC-GS) O financiamento climático internacional ao Brasil tem se consolidado como um dos pilares para viabilizar a transição ecológica no país. Em 2023, o volume de recursos comprometidos por doadores internacionais atingiu cifras significativas, revelando tanto as prioridades dos financiadores quanto as estratégias adotadas por instituições brasileiras para acessar esses fundos. Uma análise detalhada dos dados mais recentes permite compreender não apenas quem está financiando, mas também para onde os recursos estão indo, em que forma estão sendo entregues e com que objetivos principais. Ao todo, o Brasil recebeu aproximadamente US$ 3,29 bilhões em financiamento climático internacional em 2023. Esse montante abrange tanto ações de mitigação quanto de adaptação às mudanças climáticas e reflete a relevância do país no cenário climático global, sobretudo às vésperas da COP30, que será sediada em Belém do Pará. Começando pela origem dos recursos (gráfico 1), os principais doadores do financiamento climático ao Brasil em 2023 foram bancos multilaterais de desenvolvimento. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) liderou o ranking com um total de quase US$ 928 milhões, seguido pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), que comprometeu cerca de US$ 862 milhões. Logo abaixo vêm o Banco Mundial, com US$ 309 milhões, e a República Francesa, que destinou ao Brasil US$ 267 milhões em financiamento climático. Esses dados refletem a relevância do Brasil na agenda climática regional, especialmente diante da sua posição estratégica na América Latina e seu papel central na conservação da Amazônia. Gráfico 1: 10 principais doadores de financiamento climático ao Brasil em 2023 Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Além dos bancos multilaterais, outros atores importantes incluem o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), a Alemanha, o Banco Europeu de Investimento e o Japão. Já os Estados Unidos aparecem com um valor modesto em relação aos demais, o que levanta questões sobre o grau de engajamento do país norte-americano com os desafios climáticos na América do Sul. Essa distribuição sugere que os bancos multilaterais, com foco em infraestrutura e desenvolvimento, estão desempenhando papel crucial no financiamento de projetos climáticos no Brasil, enquanto doadores bilaterais ainda têm espaço para ampliar sua atuação. Tão importante quanto saber quem financia é entender onde e como esses recursos são aplicados. De acordo com o gráfico 2, o setor que mais recebeu financiamento em 2023 foi o de Serviços Bancários e Financeiros, com quase US$ 780 milhões. Isso pode incluir iniciativas voltadas ao desenvolvimento de instrumentos financeiros verdes, como títulos sustentáveis, fundos climáticos ou mecanismos de crédito verde. Em seguida, aparecem os setores de Proteção Ambiental e Transporte e Armazenamento, com US$ 535 milhões e US$ 435 milhões, respectivamente. Esses dois setores estão diretamente ligados a políticas públicas voltadas à conservação ambiental e à redução de emissões, por meio da mobilidade urbana sustentável, por exemplo. Gráfico 2: 10 setores que mais receberam financiamento climático ao Brasil em 2023 Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Outros setores relevantes foram o de Energia, com mais de US$ 340 milhões, e o de Saneamento e Abastecimento de Água, com cerca de US$ 209 milhões. Juntos, eles evidenciam uma orientação do financiamento climático voltada à infraestrutura básica e à descarbonização da matriz energética. Por outro lado, áreas como Educação, Saúde e Serviços Sociais aparecem no fim da lista, indicando que o componente humano e social da transição ainda está subfinanciado. Esse desequilíbrio pode comprometer os objetivos de uma transição justa, inclusiva e com benefícios distribuídos de forma equitativa. Outra dimensão fundamental do financiamento climático diz respeito ao seu objetivo principal: adaptação ou mitigação. Com base no gráfico 3, em 2023, a maior parte dos recursos destinados ao Brasil teve como finalidade ações de mitigação, que totalizaram US$ 2,58 bilhões. Já os projetos de adaptação receberam US$ 1,22 bilhão, menos da metade. Essa diferença é coerente com a tendência internacional, que favorece ações de mitigação por oferecerem resultados mais tangíveis em termos de redução de emissões. Contudo, diante da vulnerabilidade do Brasil a eventos climáticos extremos — como secas, enchentes, deslizamentos e queimadas —, os investimentos em adaptação precisam crescer de forma mais acelerada para garantir a resiliência das populações mais afetadas. Gráfico 3: Distribuição do Financiamento Climático para o Brasil (2023) Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Ao observar a forma como esses recursos são entregues, chama a atenção a forte predominância das doações, como pode ser observado no gráfico 4, que representaram quase 80% dos projetos em 2023. Os empréstimos vieram em segundo lugar, com cerca de 17%, enquanto a participação (equity) foi responsável por apenas 2,7% dos projetos. O fato de que a maioria dos projetos utiliza recursos não reembolsáveis é um sinal positivo, sobretudo em áreas como adaptação, que frequentemente envolvem projetos com menos retorno financeiro direto. No entanto, o baixo uso de instrumentos de participação pode indicar uma baixa atração de investidores privados para o financiamento climático no Brasil, o que representa um desafio relevante para os próximos anos. Gráfico 4: Distribuição de Projetos no Brasil por Tipo de Instrumento Financeiro (2023) Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. No que diz respeito às modalidades de cooperação, gráfico 5, os empréstimos concessionários foram o principal instrumento utilizado, respondendo por um montante de quase US$ 2,88 bilhões. Esse tipo de financiamento oferece condições mais favoráveis do que o mercado tradicional, como taxas de juros mais baixas e prazos estendidos, sendo fundamental para viabilizar grandes projetos de infraestrutura climática. Em segundo lugar, aparece o apoio orçamentário setorial, que totalizou US$ 359 milhões. Esta modalidade permite que os recursos entrem diretamente no orçamento público, vinculados a políticas climáticas específicas. Já o apoio a projetos por meio de doações teve participação tímida, com apenas US$ 35 milhões, indicando que os recursos financeiros doados estão concentrados principalmente em linhas estruturadas via bancos de desenvolvimento e não