Por Rafael Sousa (CFC-GS/UFPA)
O Centro-Oeste brasileiro performa como o motor do agronegócio nacional. No entanto, o sucesso baseado na exportação de commodities esconde um desafio estrutural silencioso: a necessidade de sofisticar nossa economia para sobreviver e liderar em um planeta sob pressão climática. Em nossa análise mais recente sobre as operações do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), exploramos como o crédito direcionado pode ser o motor dessa transformação, unindo a agenda ambiental à teoria da Complexidade Econômica.
O Paradoxo da Riqueza vs. Sofisticação
Dados recentes de 2024 sobre o Índice de Complexidade Econômica (ECI), por mesorregiões, revelam um cenário preocupante para o Centro-Oeste. Apesar da força financeira, a região apresenta a menor média de complexidade do Brasil, situando-se abaixo até de regiões como o Norte e o Nordeste. Enquanto o Sudeste e o Sul lideram com economias diversificadas, o coração do agronegócio (como o Norte Mato-grossense e o Sudoeste de Mato Grosso do Sul) exibe índices de complexidade extremamente baixos.
Figura 1 – Indicadores de Complexidade Econômica por Mesorregião (2024)

Fonte: Elaboração própria com base na mensuração de complexidade mesorregional (2024).
Tabela 1: Resumo do Desempenho de Complexidade Econômica (ECI) por Região
| Região | ECI Médio | Mesorregião de Destaque (Max) | ECI Min |
| Sudeste | 0,286 | Metropolitana de São Paulo (5,648) | -0,919 |
| Sul | 0,226 | Metropolitana de Curitiba (3,585) | -0,812 |
| Norte | -0,123 | Centro Amazonense (1,794) | -1,181 |
| Nordeste | -0,145 | Metropolitana de Recife (2,238) | -0,848 |
| Centro-Oeste | -0,482 | Distrito Federal (1,461) | -1,096 |
Fonte: Elaboração própria com base na mensuração de dados de complexidade mesorregional (2024).
Isso significa que a nossa riqueza atual está “encapsulada” em produtos primários. O conhecimento técnico para produzir, desde a biotecnologia das sementes até o maquinário de precisão, é frequentemente importado. Essa “simplicidade” produtiva nos torna vulneráveis não apenas às oscilações de preços internacionais, mas principalmente aos riscos climáticos que ameaçam a nossa base de recursos naturais.
O Que os Dados do FCO Revelam?
Ao analisarmos mais de 151 mil operações do FCO através de técnicas avançadas de estatística multivariada (FAMD), descobrimos que a solução não está em “injetar mais dinheiro”, mas em refinar como ele é aplicado. Os dados mostram que o valor total da operação é o que menos importa para definir o perfil de desenvolvimento. O verdadeiro poder de transformação reside no desenho dos programas e nas modalidades de crédito.
Identificamos quatro grupos (clusters) de operações que indicam a configuração atual do nosso desenvolvimento:
- Cluster 3 (A Vanguarda): Onde reside a inovação. Foca em modernização rural, recuperação de pastagens e sistemas integrados (ILPF). É o motor da diversificação e da resiliência climática.
- Cluster 2 (A Base Tradicional): Concentra a maior parte das operações (PRONAF e custeio). Embora essencial para a renda no campo, sua lógica atual de baixa tecnologia pode ser contraproducente, mantendo o produtor preso a modelos vulneráveis e de baixa complexidade.
- Cluster 1 e 4: Atuam no setor de serviços urbano e em demandas emergenciais, garantindo a liquidez do sistema, mas ainda desconectados de uma missão climática de longo prazo.
Quadro 1- Síntese da Tipificação das Operações de Crédito do FCO no Centro-Oeste
| Cluster | Valor Médio (Z-SCORE) | Porte Predominante | Localização Chave (UF) | Programas e Finalidades de Destaque | Perfil de Complexidade e Sustentabilidade |
| 1 | +0,0422 | Pequeno (15.322) | GO (7.219) | Comércio e Serviços (17.647); Indústria (348). | Médio: Foca na diversificação urbana e fortalecimento do setor terciário. |
| 2 | -0,1553 | Pequeno (72.975) | GO (34.095); MT (25.036) | PRONAF (63.755); PRONAF RA (7.624); Rural Custeio (2.498). | Baixo: Caráter socioeconômico de subsistência e inclusão financeira no campo. |
| 3 | +0,1711 | Pequeno (35.249); Mini/Micro (15.788) | GO (32.993); MS (14.132) | Desenvolvimento Rural (59.526); PRONATUREZA (545); Lavoura-Pecuária (12). | Alto: Vetor de modernização e inovação rural com maior aderência climática. |
| 4 | -0,0881 | Pequeno (2.494) | GO (1.431); MS (711) | Crédito Emergencial MPE (2.626); Capital de Giro (3.007); Turismo (239). | Baixo/Reativo: Suporte de liquidez e apoio a nichos setoriais específicos. |
Fonte: Elaboração própria com base nas estimações FAMD em R
Janela de Oportunidade: O Salto Verde
O financiamento climático não é apenas sobre “proteger árvores”; é sobre soberania tecnológica. Ao financiar atividades sofisticadas e de alto valor agregado (como bioinsumos locais, monitoramento via satélite e engenharia de restauração ) o FCO pode induzir a criação de novas capacidades produtivas.
A janela de oportunidade é clara: o Centro-Oeste pode converter sua liderança em commodities em liderança em Complexidade Verde. No entanto, para isso, o FCO precisa evoluir de um fornecedor de crédito de “prateleira” para um arquiteto de missões. O objetivo deve ser elevar o índice de complexidade de cada mesorregião, incentivando o salto tecnológico dos produtores tradicionais para o patamar de inovação visto no Cluster 3.
Conclusão: O Crédito como Bússola
O futuro do desenvolvimento regional não será medido apenas pelo volume de grãos exportados, mas pela densidade de conhecimento e sustentabilidade que conseguiremos incorporar em cada hectare. O FCO já possui o capital; agora, precisamos de seletividade estratégica.
Priorizar a complexidade econômica e a resiliência climática é a única forma de garantir que o Centro-Oeste não seja apenas o celeiro do mundo, mas também o seu laboratório de inovação para uma economia regenerativa e próspera.