Por Tiago da Silva Conceição (CFC-GS/UFPA)
O Banco do Brasil, uma instituição financeira pública fundada em 1808, desempenha um papel central no sistema financeiro nacional, oferecendo uma ampla gama de serviços. No entanto, neste estudo, o foco está em seu protagonismo no financiamento climático no Brasil, especialmente no apoio a iniciativas sustentáveis e na promoção de uma economia de baixo carbono. Segundo Lima (2025), “o financiamento climático é um dos principais instrumentos para viabilizar a transição para uma economia de baixo carbono e resiliente aos impactos da crise climática”. Assim, apresentaremos as principais iniciativas da instituição.
Em primeiro plano, destaca-se o protagonismo do Banco do Brasil na estruturação e concessão de crédito rural orientado à sustentabilidade, sendo um dos principais operadores de programas governamentais voltados à transição para uma economia de baixo carbono. Nesse contexto, sua atuação no financiamento de práticas agropecuárias sustentáveis, como a recuperação de áreas degradadas, o incentivo à integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e a adoção de tecnologias de baixa emissão, evidencia sua função estratégica na implementação de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, notadamente no âmbito do Acordo de Paris. Tais iniciativas se articulam, por exemplo, ao Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), consolidando o banco como vetor de internalização de diretrizes climáticas no setor produtivo.
Ademais, o Banco do Brasil desempenha papel relevante no financiamento da agricultura familiar e de segmentos historicamente marginalizados, por meio de linhas de crédito como o PRONAF, que, embora não sejam exclusivamente climáticas, possuem potencial significativo de promover resiliência socioambiental e adaptação às mudanças climáticas. Todavia, a literatura crítica aponta limites estruturais no acesso a esses instrumentos por populações tradicionais, como comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas, em razão de entraves burocráticos, exigências documentais e assimetrias informacionais. Esse cenário revela uma tensão entre a universalização formal das políticas de crédito e sua efetiva capilaridade nos territórios.
Outro eixo fundamental refere-se à atuação do banco na intermediação e alocação de recursos provenientes de fundos climáticos e ambientais, tanto nacionais quanto internacionais. Nesse aspecto, o Banco do Brasil contribui para a operacionalização de iniciativas como o Fundo Amazônia e mecanismos financeiros associados à agenda de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), viabilizando investimentos em conservação, manejo sustentável e bioeconomia. Tal função reforça seu papel como elo entre fluxos globais de financiamento climático e sua materialização em projetos locais.
Paralelamente, observa-se o avanço do Banco do Brasil na incorporação de instrumentos financeiros inovadores alinhados à agenda ESG (Environmental, Social and Governance), como a emissão de títulos sustentáveis (green bonds) e o desenvolvimento de produtos financeiros voltados à sustentabilidade. Esses mecanismos ampliam a capacidade de captação de recursos no mercado internacional e contribuem para a diversificação das fontes de financiamento climático no país, ao mesmo tempo em que inserem o banco em dinâmicas globais de financeirização da natureza e do clima.
Dessa forma, o Banco do Brasil se configura como um ator estratégico no campo do financiamento climático no Brasil, operando na interseção entre Estado, mercado e sociedade. Sua atuação possui potencial significativo para impulsionar a transição ecológica e promover justiça climática; contudo, a efetividade desse papel depende do enfrentamento de desigualdades estruturais, do fortalecimento de mecanismos de governança socioambiental e da construção de modelos de financiamento que reconheçam e valorizem os saberes e modos de vida das populações tradicionais.
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REFERÊNCIAS
LIMA, Andressa. Financiamento climático no Brasil (2014–2023): evolução, destino dos recursos e instrumentos financeiros. Centro de Financiamento Climático para o Sul Global, 2 set. 2025. Disponível em: https://cfc-gs.com.br/pt/financiamento-climatico-no-brasil-2014-2023-evolucao-destino-dos-recursos-e-instrumentos-financeiros/. Acesso em: 30 abr. 2026.
BANCO DO BRASIL. Relatório de Sustentabilidade 2023. Brasília: Banco do Brasil, 2023. Disponível em: https://www.bb.com.br. Acesso em: 30 abr. 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Plano ABC+ 2020-2030: Agricultura de Baixa Emissão de Carbono. Brasília, 2021.
Banco Central do Brasil. Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (RIS). Brasília: BCB, 2023. Disponível em: https://www.bcb.gov.br. Acesso em: 30 abr. 2026.