Por Alcilene Farias (CFC-GS/UFPA)
A crise climática e a pobreza estão intimamente relacionadas, pois as mudanças no clima tendem a ampliar as desigualdades sociais e econômicas. Em geral, aqueles que menos contribuíram para o problema são os que mais sofrem com seus efeitos. Embora os países desenvolvidos tenham sido historicamente responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE), são as populações mais pobres, especialmente no Sul Global, que enfrentam as consequências mais severas. Os impactos das mudanças no clima, como secas prolongadas, enchentes, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade, afetam de forma desproporcional as populações em situação de vulnerabilidade, reduzindo rendimentos, comprometendo a segurança alimentar e aumentando a incidência de doenças.
A escala global desses eventos é bastante preocupante. O Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED, 2025) que mantém o International Disaster Database (EM-DAT), registrou 393 desastres relacionados a riscos naturais, que causaram 16.753 mortes, atingiram 167,2 milhões de pessoas e ocasionaram perdas econômicas de US$241,95 bilhões. A vulnerabilidade se manifesta de forma acentuada em contextos locais, como o ocorrido no Brasil, onde as inundações, deslizamentos de terra e enchentes no início de maio, na região do Rio Grande do Sul, causaram prejuízos estimados em US$7 bilhões (CRED, 2025).
Segundo Bruna e Pisani (2010), as populações pobres, muitas vezes, são as mais atingidas, justamente porque vivem em situações mais precárias, moram em áreas de risco como encostas, margens de rios, periferias sem infraestrutura, etc., e têm menos acesso a serviços públicos como saneamento, saúde e transporte dispondo de poucos recursos financeiros para se recuperar após um desastre. A pobreza atua como um fator de multiplicação de riscos e de seus efeitos adversos (Bruna; Pisani, 2010).
A Figura 1 ilustra o ciclo de vulnerabilidade entre mudanças climáticas e pobreza, conforme descrito por Bruna e Pisani (2010). O ciclo se inicia com as mudanças climáticas, que levam à ocorrência de acidentes naturais (como inundações e deslizamentos). Estes acidentes impactam as populações pobres, que, por sua vez, têm sua situação de vida agravada pela pobreza (perda de bens, dificuldade de recuperação). O agravamento da pobreza, por fim, aumenta o impacto das mudanças climáticas sobre essas populações, fechando o ciclo de vulnerabilidade e reforçando a pobreza como um fator de multiplicação de riscos.
Figura 1: Ciclo de Mudanças Climáticas sobre Populações Pobres

Fonte: (Bruna; Pisani, 2011)
A combinação entre pobreza e exposição a riscos climáticos é um dos principais fatores de vulnerabilidade em países de baixa renda. O United Nations Development Programme (UNDP) destaca que a maioria das pessoas em situação de pobreza multidimensional está exposta a pelo menos um risco climático, sendo que milhões enfrentam múltiplos riscos simultaneamente (UNDP, 2025). O gráfico 1 demonstra que o Sul da Ásia e a África Subsaariana, regiões que compõem o Sul Global, concentram o maior número de pessoas pobres expostas a riscos climáticos, totalizando 724 milhões de pessoas. Além disso, a sobreposição de riscos (2, 3 ou 4 riscos) é significativamente maior nessas regiões.
Gráfico 1: Número de Pessoas Pobres Expostas a Riscos Climáticos por Região (em milhões)

Fonte: (adaptado de UNDP, 2025, figura 5)
Um dos impactos socioeconômicos mais críticos das mudanças climáticas, de acordo com Rosenberg (2023), é o aumento do risco de insegurança alimentar, especialmente em países em desenvolvimento que são altamente dependentes da agricultura. O aquecimento global, ao elevar a temperatura e alterar os padrões de chuva, gera aumento do risco de secas, enchentes e queda da produção agrária, afetando diretamente a subsistência e a economia de países agrícolas.
A ONU define pobreza para além de questões monetárias, englobando a falta de acesso à segurança alimentar e nutricional, saúde e educação (Rosenberg, 2023). Nesse sentido, as mudanças climáticas agravam a pobreza, pois a destruição do meio ambiente prejudica a produção de alimentos e dificulta o acesso das pessoas aos recursos essenciais para viver. Diante desse cenário, o financiamento climático emerge como uma ferramenta essencial para mitigar os impactos e promover a adaptação, especialmente no Sul Global. O objetivo é fortalecer os países para que se tornem mais resistentes às mudanças climáticas, o que inclui suporte financeiro para a mudança na estrutura produtiva e para a implementação de políticas de adaptação. Instituições financeiras de desenvolvimento, como o BNDES e o BDMG no Brasil, por exemplo, são atores relevantes para direcionar esses recursos, envolvendo a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas (Tavares, 2023).
No entanto, a efetividade dessa ferramenta é comprometida pela grande lacuna entre o financiamento necessário e o que é efetivamente disponibilizado. O United Nations Environment Programme (UNEP), em seu relatório Adaptation Gap Report 2025, quantifica essa disparidade. Conforme o gráfico 2, as necessidades anuais de financiamento para adaptação em países em desenvolvimento até 2035 estão estimadas entre US$310 e US$365 bilhões por ano. Em contraste, o fluxo atual de financiamento internacional para adaptação é de apenas US$26 bilhões. Essa lacuna de financiamento, que é 12 a 14 vezes maior do que o valor fornecido, demonstra que os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos estão aquém do necessário para enfrentar a emergência climática no Sul Global.
Gráfico 2: Comparação entre Necessidades de Financiamento para Adaptação e Fluxos Atuais (em bilhões de US$)

Fonte: (UNEP, 2025, figura ES.3)
Diante da falta de recursos e do contínuo ciclo de vulnerabilidade, surgem alguns questionamentos importantes: até quando os países do Sul Global terão que arcar com as consequências da falta de ação diante da crise climática? É justo que as nações que menos contribuíram para o problema sejam as que mais sofrem com perdas e danos que dificultam o combate à pobreza?
A luta contra a pobreza e a crise climática são, portanto, faces da mesma moeda.O alcance das metas de desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza até 2030, propostas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), depende de como o mundo, de maneira conjunta, irá lidar com os desafios que unem a questão social e a crise climática.
Referências
BRUNA, Gilda Collet; PISANI, Maria Augusta Justi. Mudanças climáticas e pobreza: reflexões. Revista Brasileira de Ciências Ambientais, n. 18, 2010. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/393704115_Mudancas_climaticas_e_pobreza_reflexoes. Acesso: 03 nov. 2025.
Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED). 2025. 2024 Disasters in Numbers. Brussels, Belgium: CRED. Disponível em: https://files.emdat.be/reports/2024_EMDAT_report.pdf. Acesso: 06 nov. 2025.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). ODS 1 – Erradicação da Pobreza. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/ods/ods1.html. Acesso em: 07 nov. 2025.
ROSENBERG, Poly. O impacto das mudanças climáticas na pobreza e no risco de insegurança alimentar. Trabalho de Conclusão de Curso, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/258613. Acesso: 03 nov. 2025.
TAVARES, Sofia Serra. Mapeamento do financiamento climático no contexto dos bancos de desenvolvimento: um estudo de caso sobre as estratégias, construção de capacidades e monitoramento, reporte e verificação no BNDES e no BDMG. Dissertação de Mestrado, Fundação Getúlio Vargas, 2023. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/7d3c9844-e3ac-4ac3-b675-c389aaf6d4da/content. Acesso: 03 nov. 2025.
UNEP (United Nations Environment Programme). Adaptation Gap Report 2025. Nairobi: UNEP, 2025. Disponível em: https://wedocs.unep.org/20.500.11822/48798. Acesso: 07 nov. 2025.
UNDP (United Nations Development Programme). 2025 Global Multidimensional Poverty Index (MPI): Overlapping Hardships: Poverty and Climate Hazards. Nova York: PNUD, 2025. Disponível em: https://hdr.undp.org/system/files/documents/global-report-document/mpireport2025en.pdf. Acesso: 07 nov. 2025.