Por Alcilene Farias (CFC-GS/UFPA)
O que é o Green Climate Fund?
O Green Climate Fund (GCF) é um fundo internacional de financiamento climático criado no âmbito da United Nations Framework Convention on Climate Change – UNFCCC com o objetivo de financiar ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa e adaptação aos impactos das mudanças climáticas, especialmente em países em desenvolvimento (UNEP, 2025).
O fundo foi estabelecido politicamente em 2010, durante os Acordos de Cancún, e teve sua estrutura institucional formalizada em 2011. A partir disso, passou por um período de construção institucional e mobilização de recursos entre 2014 e 2019, quando definiu sua estrutura operacional e iniciou seus primeiros projetos. Desde então, consolidou-se como um dos principais instrumentos do financiamento climático internacional (2020 – 2023) (Green Climate Fund, 2023).
Ao longo do período de 2020 a 2023, o GCF passou por uma expansão significativa de sua atuação. Nesse intervalo, o fundo ampliou seu portfólio para mais de 200 projetos, com cerca de US$ 12 bilhões em financiamento próprio e mais de US$ 45 bilhões mobilizados com cofinanciamento, alcançando 129 países (Green Climate Fund, 2023).
O Gráfico 1 apresenta a evolução do financiamento entre 2015 e 2023, distinguindo entre os valores aprovados, em implementação e efetivamente desembolsados. Observa-se um crescimento expressivo do volume de recursos ao longo do período, especialmente a partir de 2020. Ao mesmo tempo, a diferença entre os valores aprovados e aqueles efetivamente desembolsados evidencia que a implementação dos projetos não ocorre de forma imediata. Parte dos recursos permaneceu em fase de execução ou ainda não havia sido desembolsada, o que indica que os projetos levam tempo para sair do papel e serem executados (Green Climate Fund, 2023, p. 17).
Gráfico 1 – Evolução e crescimento do portfólio do GCF

Fonte: Green Climate Fund (2023), GCF-1 Progress Report. Disponível em: https://www.greenclimate.fund/gcf-1-progress-report
Esse modelo foi aprofundado nos períodos seguintes, o GCF-2 (2024–2027), que busca ampliar ainda mais o volume de recursos, fortalecer o apoio a países mais vulneráveis e aumentar o impacto das ações financiadas (Green Climate Fund, 2026).
Objetivos e áreas de atuação
O GCF atua com dois objetivos centrais: mitigação e adaptação. No campo da mitigação, busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa por meio de iniciativas como energia renovável, transporte sustentável, preservação florestal e eficiência energética. Já na adaptação, o foco está em fortalecer a capacidade dos países de responder aos impactos das mudanças climáticas, incluindo segurança alimentar e hídrica, infraestrutura resiliente, proteção de ecossistemas e apoio a populações vulneráveis.
O fundo também busca manter equilíbrio entre os recursos destinados a essas duas áreas.
Funcionamento e acesso aos recursos
O GCF baseia-se em uma estrutura institucional de governança liderada por um Conselho composto por representantes de países desenvolvidos e em desenvolvimento, o que assegura um modelo de gestão equilibrado, possuindo personalidade jurídica própria e atuando de forma independente, embora esteja vinculado ao mecanismo financeiro da UNFCCC e opere sob a orientação da Conferência das Partes – COP, à qual presta contas e segue diretrizes estratégicas.
O acesso aos recursos do GCF ocorre por meio de uma estrutura institucional específica. Cada país designa uma autoridade nacional, chamada National Designated Authority – NDA, responsável por coordenar o relacionamento com o fundo e garantir que os projetos estejam alinhados às estratégias nacionais. Os projetos são submetidos por instituições credenciadas (Accredited Entities), que possuem autorização para acessar os recursos, enquanto a implementação é realizada por entidades executoras. Esse modelo reforça a abordagem orientada pelo país (country-driven approach), assegurando que o financiamento esteja alinhado às prioridades nacionais (Green Climate Fund, 2011).
Instrumentos financeiros e fontes de recursos
Quanto aos instrumentos financeiros, o GCF utiliza uma combinação diversificada que inclui doações, empréstimos concessionais, garantias, participação em investimentos e mecanismos de cofinanciamento com bancos multilaterais e outras instituições. Essa diversidade permite ao fundo não apenas financiar projetos diretamente, mas também atuar como catalisador de recursos adicionais, mobilizando investimentos públicos e privados em maior escala e ampliando o volume total de financiamento climático disponível para países em desenvolvimento (Green Climate Fund, 2011).
Os recursos do GCF provêm majoritariamente de países desenvolvidos, que assumem compromissos financeiros no âmbito da governança climática internacional para apoiar ações de mitigação e adaptação em países em desenvolvimento. Além das contribuições governamentais, o fundo também pode receber aportes de diferentes fontes, incluindo bancos multilaterais, instituições financeiras, setor privado e fundações, o que amplia sua capacidade de mobilização de recursos (Green Climate Fund, 2011).
Tipos de projetos financiáveis
Os projetos financiados pelo GCF abrangem diversas áreas estratégicas, como:
- energia limpa;
- agricultura resiliente;
- adaptação a secas e enchentes;
- conservação florestal;
- cidades sustentáveis;
- proteção costeira; e
- sistemas de alerta climático.
Essas iniciativas devem gerar impacto climático mensurável e benefícios sociais.
Limitações no acesso ao financiamento climático
Apesar de sua relevância, o acesso aos recursos apresenta limitações importantes. Em um trabalho realizado pelo World Resources Institute, intitulado Improving Access to the Green Climate Fund: How the Fund Can Better Support Developing Country Institutions, Caldwell e Larsen (2021) mostram que, embora o fundo tenha sido criado para ampliar o acesso direto de países em desenvolvimento ao financiamento climático, esse objetivo ainda enfrenta obstáculos significativos. Segundo os autores, a complexidade dos processos, os altos custos de elaboração de projetos e as limitações dos mecanismos de apoio dificultam que muitas instituições transformem a credenciação em acesso efetivo aos recursos, o que contribui para a concentração do financiamento em entidades internacionais.
O Gráfico 2 reforça essa análise ao comparar o número de instituições credenciadas com o número de projetos aprovados. Os dados evidenciam um certo desequilíbrio no acesso ao financiamento climático, embora haja um número significativo de instituições nacionais credenciadas, a maior parte dos projetos aprovados está concentrada em entidades internacionais.
Gráfico 2 – Direct and International Entities: Number of Entities versus Number of Projects Approved

Fonte: Caldwell e Larsen (2021), World Resources Institute. Disponível em: https://www.wri.org/research/improving-access-green-climate-fund-how-fund-can-better-support-developing-country
Mesmo com a expansão observada nas mobilizações de recursos do GCF-1 e GCF-2, esses desafios persistem. O próprio fundo reconhece a necessidade de ampliar a participação de entidades nacionais e fortalecer suas capacidades institucionais. Assim, embora tenha havido avanços importantes em termos de volume de financiamento e alcance global, ainda permanecem limitações estruturais no funcionamento do financiamento climático internacional (Green Climate Fund, 2023).
Considerações
O Green Climate Fund se consolidou como um dos principais instrumentos de financiamento climático global, desempenhando um papel fundamental no apoio a países em desenvolvimento na transição para economias mais sustentáveis e resilientes. Apesar dos desafios no acesso aos recursos, nas capacidades institucionais e no funcionamento de seus mecanismos, o fundo continua sendo essencial para viabilizar ações climáticas em escala global e para fortalecer a cooperação internacional no enfrentamento das mudanças climáticas.
Você pode ler mais matérias sobre financiamento climático no nosso blog e conferir dados de financiamento pelo nosso tracker. Acesse!
Referências
CALDWELL, Molly; LARSEN, Gaia. Improving access to the Green Climate Fund: how the fund can better support developing country institutions. Washington, DC: World Resources Institute, 2021. Disponível em: https://www.wri.org/research/improving-access-green-climate-fund-how-fund-can-better-support-developing-country. Acesso em: 6 abr. 2026.
GREEN CLIMATE FUND. GCF-1 progress report: GCF’s first replenishment period 2020–2023. Incheon: Green Climate Fund, 2023. Disponível em: https://www.greenclimate.fund/gcf-1-progress-report. Acesso em: 6 abr. 2026.
GREEN CLIMATE FUND. GCF-2. Disponível em: https://www.greenclimate.fund/gcf-2. Acesso em: 6 abr. 2026.
GREEN CLIMATE FUND. Governing instrument for the Green Climate Fund. Songdo, Incheon: Green Climate Fund, 2011. Disponível em: Governing Instrument Green Climate Fund. Acesso em: 6 abr. 2026.
GREEN CLIMATE FUND. Green Climate Fund. Disponível em: https://www.greenclimate.fund/. Acesso em: 6 abr. 2026.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Green Climate Fund. Disponível em: https://www.unep.org/about-un-environment/funding-and-partnerships/green-climate-fund. Acesso em: 9 abr. 2026.