Greenwashing Climático: Empresas Estão Realmente Financiando a Sustentabilidade?
Por Lucas Ribeiro Cunha (CFC-GS/UFPA) Nas últimas décadas, a crise climática deixou de ser tema exclusivo de ambientalistas e cientistas para ocupar o centro das estratégias corporativas, dos relatórios financeiros e até das prateleiras dos supermercados. Com o crescimento da consciência ambiental dos consumidores e a pressão dos mercados de capitais por critérios ESG (Environmental, Social and Governance), as empresas passaram a investir em comunicar sua suposta “sustentabilidade”. O problema é que, em grande parte dos casos, essa comunicação não corresponde à realidade, o que acaba sendo conhecido como o fenômeno do greenwashing. 1. O QUE É GREENWASHING? O termo surgiu em 1986, cunhado pelo ambientalista norte-americano Jay Westerveld para criticar a prática de hotéis que pediam aos hóspedes que reutilizassem toalhas “para salvar o planeta” enquanto expandiam suas instalações de forma pouco sustentável. Desde então, o conceito se expandiu e hoje descreve qualquer prática pela qual uma organização transmite uma imagem ou declaração ambiental falsa, enganosa ou não comprovada com o objetivo de obter vantagens comerciais ou reputacionais. O greenwashing pode se manifestar de diversas formas: desde o uso de embalagens verdes e linguagem vaga até alegações sofisticadas sobre neutralidade de carbono e metas que não possuem planos concretos de execução. Em todos os casos, o efeito é o mesmo, isto é, o consumidor ou investidor é induzido a acreditar que está apoiando uma empresa genuinamente comprometida com a sustentabilidade, quando na verdade está financiando o um empreendimento que viola as normas ambientais. 2. A DIMENSÃO DO PROBLEMA A escala do greenwashing é expressiva, de modo que um relatório produzido pela Market Analysis Brasil com apoio do Instituto Akatu analisou mais de dois mil produtos disponíveis no mercado nacional e identificou 3.045 alegações ambientais. O resultado demonstrado foi alarmante, eis que 85% dessas alegações foram superficiais, falsas ou enganosas. Nesse sentido, alguns exemplos recentes ilustram bem como o greenwashing opera na prática. A Shell é talvez o caso mais emblemático entre as empresas de combustíveis fósseis. A companhia promove sistematicamente uma imagem de compromisso com a transição energética, mas dados de 2023 mostram que emitiu aproximadamente 1,6 gigaton de CO₂ equivalente, mantendo-se entre as maiores emissoras do setor energético global. Por sua vez, a FIFA enfrentou repercussão internacional após afirmar que a Copa do Mundo de 2022, no Catar, seria “carbono neutra”. Entretanto, o Carbon Market Watch publicou um relatório demonstrando que a organização havia subestimado dramaticamente as emissões do torneio, tendo sido reconhecido, em 2023 pela Comissão Suíça de Equidade, que as alegações eram falsas, tornando-se um dos poucos órgãos do mundo a reconhecer oficialmente o greenwashing de um evento esportivo de grande porte. O Brasil não está imune ao problema e o contexto nacional agrega uma camada específica, qual seja: a conexão entre greenwashing e o mercado de créditos de carbono, setor que o país tenta estruturar com a Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Em junho de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Greenwashing — no Dia Mundial do Meio Ambiente —, desarticulando uma organização criminosa que comercializava cerca de R$ 180 milhões em créditos de carbono fraudulentos, lastreados em terras públicas ilegalmente invadidas. A operação cumpriu 76 mandados de busca e apreensão e resultou em 5 prisões preventivas em múltiplos estados. Em dezembro de 2025, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) acionou a GOL na justiça por supostas práticas enganosas em seus programas de compensação de carbono, questionando a origem dos créditos utilizados e a eficácia real das ações ambientais divulgadas ao público. Esses episódios revelam que o greenwashing no Brasil não é apenas uma questão de marketing enganoso: em seus casos mais graves, envolve fraude ambiental, criminal e financeira. 3. SUGESTÕES DE PROTEÇÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS Identificar o greenwashing não é simples, mas há critérios que ajudam tanto o consumidor comum quanto o investidor institucional a distinguir compromisso real de retórica ambiental. Para consumidores, o ponto de partida é a desconfiança de alegações vagas. Termos como “verde”, “ecológico”, “sustentável” ou “amigo do ambiente”, sem qualquer referência a certificações reconhecidas ou métricas verificáveis, devem acender um sinal de alerta. Para investidores, o desafio é maior, porém também recomenda-se atentar aos padrões internacionais de qualidade ambiental, o que pode oferecer, em princípio, maior segurança. Da mesma forma, a análise da governança climática interna — existência de comitês de sustentabilidade, metas vinculadas à remuneração dos executivos e auditorias externas independentes — é um indicador relevante de compromisso real. Diante disso, o greenwashing climático é mais do que um problema de comunicação corporativa, qualificando-se como uma ameaça estrutural à integridade dos mercados de financiamento climático e à eficácia das políticas públicas de descarbonização. Quando empresas se apropriam da linguagem da sustentabilidade sem correspondência com suas práticas reais, desviam recursos, enganam consumidores, distorcem concorrência e retardam a transição energética que o planeta urgentemente demanda. A boa notícia é que consumidores mais informados, investidores mais exigentes e reguladores mais ativos estão construindo, gradualmente, um ambiente menos tolerante à retórica verde vazia. A questão não é se as empresas devem comunicar seus avanços em sustentabilidade, mas é se essa comunicação reflete uma transformação real ou apenas uma estratégia de imagem. Para o clima, essa distinção é, literalmente, vital. Você pode ler mais matérias sobre financiamento climático no nosso blog e conferir dados de financiamento pelo nosso tracker. Acesse! 4. REFERÊNCIAS BRASIL. Polícia Federal. Operação Greenwashing: nota informativa. Disponível em: https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2024/06/pf-deflagra-operacao-greenwashing-para-investigar-venda-irregular-de-creditos-de-carbono. Acesso em: 03 jun. 2026. MAIR, Gavin. Qatar 2022 FIFA World Cup: carbon neutrality claim is greenwashing. Carbon Market Watch. Disponível em: https://carbonmarketwatch.org/2024/12/20/fifas-foul-irresponsible-farcical-and-absurd-approach-to-the-climate/. Acesso em: 03 jun. 2026. PAULO, Paulo Paiva. Idec aciona Gol na Justiça por suposta propaganda enganosa de programa que prometia compensar a poluição de voos. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2025/12/07/acao-idec-gol-suposto-greenwashing.ghtml. Acesso em: 06 jun. 2026. REDAÇÃO A ECONOMIA B. Greenwashing no Brasil 2024. Disponível em: https://www.aeconomiab.com/greenwashing-no-brasil. Acesso em: 01 jun. 2026. ROSE, Amelia. Exemplos de greenwashing em 2025: as 10 principais empresas de greenwashing enganando os consumidores. LytHouse. Disponível em: https://www.lythouse.com/blog/top-10-greenwashing-companies-examples. Acesso em: 08