Colonialismo Climático e Financeirização da Natureza no Sul global

Por Juan Carlos Pereira (UFPA/CFC-GS)

O chamado colonialismo climático expressa uma nova configuração de dominação global, em que nações economicamente poderosas utilizam o discurso ambiental para manter a exploração sobre países do Sul Global. De acordo com Martinez (2014), essa lógica se sustenta na justificativa de reduzir os impactos do aquecimento global, enquanto Táíwò (2019) interpreta o fenômeno como a continuidade do controle estrangeiro sobre territórios periféricos por meio de políticas ambientais que favorecem os interesses do Norte Global.

Embora as nações em desenvolvimento sejam as mais atingidas pelas mudanças climáticas, sua participação histórica nas emissões de carbono é reduzida. Desde 1850, por exemplo, a América do Norte é responsável por 27% das emissões e a Europa por 22%, ao passo que a América Latina contribuiu com apenas 6% (Chancel et al., 2022; Alckmin, 2023).

Entretanto, as medidas de descarbonização impostas ou incentivadas pelos países desenvolvidos frequentemente comprometem a autonomia ambiental e os recursos naturais do Sul Global. O avanço da produção de biocombustíveis e a expansão da mineração de lítio e cobalto exemplificam esse processo, transformando países como a Bolívia em verdadeiras “Zonas Verdes de Sacrifício”, marcadas por danos sociais e ecológicos significativos (Lee, 2022; Zografos; Robbins, 2020). Comprovando que, embora o Sul global não seja o principal causador da crise climática, a região é a que mais sofre com os impactos ambientais e das novas perspectivas coloniais. Assim, políticas que aparentam buscar soluções sustentáveis acabam por reforçar o desequilíbrio de poder e favorecer a concentração de riqueza nos países do Norte.

Nesse cenário, a lógica neoliberal e a financeirização da natureza transformam elementos vitais — como o carbono, a água e a biodiversidade — em ativos econômicos. Mecanismos como os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSAs) e os mercados de carbono exemplificam essa mercantilização, atribuindo valores monetários a funções ecológicas. Apesar de apresentarem-se como instrumentos de conservação, esses dispositivos reproduzem contradições, pois permitem que os mais ricos continuem poluindo mediante pagamento ou compra de créditos ambientais. Esse processo configura o que Harvey (2013) denomina “colonialismo de carbono”, em que a responsabilidade ambiental é transformada em mercadoria, perpetuando uma lógica de exploração disfarçada de compromisso ecológico.

REFERÊNCIAS

ALKMIN, Fábio Márcio. Colonialismo climático e financeirização do carbono: Reflexões sobre o REDD+ e a autonomia socioterritorial dos povos indígenas na Amazônia. Ambientes: Revista de Geografia e Ecologia Política, v. 5, n. 2, 2023.

CHANCEL, Lucas; PIKETTY, Thomaz; SAEZ, Emmanuel; ZUCMAN, Gabriel. World Inequality Report 2022. World Inequality Lab. Harvard University Press, 2022.

CONTIPELLI, Ernani. Da governança dos comuns ao policentrismo: considerações sobre Elinor Ostrom e mudança climática. Revista Jurídica (FURB), v. 24, n. 53, p. e8142-e8142, 2020.

HARVEY, David. Os limites do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

LEE, Chermaine. Understanding climate colonialism. Fairplanet. 2022. Disponível em: <https://www.fairplanet.org/story/understanding-climate-colonialism/>. Acesso em 06 nov. 2025.

MARTINEZ, Doreen E. The right to be free of fear: indigeneity and the United Nations. Wicazo Sa Review, v. 29, nº2, pp. 63-87, 2014.

TÁÍWÒ, Olúfẹ́mi O. The Green New Deal and the Danger of Climate Colonialism. Slate, 2019. Disponível em: <https://slate.com/technology/2019/03/green-new-deal-climate-colonialism-energy-land.html>. Acesso em: 06 nov. 2025.

ZOGRAFOS, Christos; ROBBINS, Paul. Green sacrifice zones, or why a green new deal cannot ignore the cost shifts of just transitions. One Earth, v. 3, nº5, pp. 543-546, 2020.

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