Por Luan Gloria (CFC-GS/UFPA)
No século XXI, a internet e a conectividade global tornaram-se vitais. Há uma demanda crescente para expandir o uso de tecnologias, superando barreiras. No entanto, essa vasta rede e o grande volume de dados geram impactos ambientais diretos. Embora esses efeitos possam não ser percebidos pelo consumidor final, o “mundo” virtual depende intrinsecamente de recursos do mundo material para existir.
Todo o conteúdo disponível na internet, bem como os dados essenciais para o treinamento de Inteligência Artificial (IA), exige armazenamento em locais físicos no planeta. É nesse contexto que surgem os grandes “Data Centers” (centro de dados). Estas são estruturas complexas que servem de base para servidores, sistemas de armazenamento e aplicações críticas. Atualmente, os principais centros tecnológicos globais estão concentrados nos Estados Unidos e na China.
A infraestrutura dos data centers exige um consumo significativo de recursos naturais, como água para resfriamento, minerais para seus componentes eletrônicos e, principalmente, energia. Essa energia pode ser oriunda de fontes renováveis (hídrica, eólica e solar) ou não renováveis (queima de combustíveis fósseis, carvão mineral e gases). A Agência Internacional de Energia (AIE) estimou que, em 2022, os centros de dados consumiram entre 1% e 1,3% de toda a energia mundial produzida. A AIE projeta que esse consumo deverá dobrar até 2026, atingindo percentuais ainda mais expressivos até o final desta década.
Diferente das potências tecnológicas que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis, o Brasil se destaca por possuir uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta. Com cerca de 80% de sua geração proveniente de fontes renováveis liderada pela força das hidrelétricas e pela rápida expansão das energias eólica e solar, o país oferece um diferencial estratégico para o setor de tecnologia, o “baixo carbono por design”. Em um cenário onde as Big Techs sofrem pressão global para atingir metas sustentáveis, a disponibilidade de energia limpa e barata posiciona o território brasileiro como um atrativo para a instalação de novos centros de dados.
O financiamento climático emerge como um catalisador essencial para a criação e expansão de infraestruturas de Data Centers “verdes”, alinhando o crescimento tecnológico com metas de sustentabilidade global. Ao direcionar capital para projetos que priorizam a eficiência energética, o uso exclusivo de fontes renováveis (solar, eólica, hídrica) e a implementação de sistemas avançados de resfriamento de baixo consumo hídrico, o financiamento climático reduz o risco e o custo inicial de tais empreendimentos. Isso estimula as Big Techs e os operadores de nuvem a investirem em localizações estratégicas, como o Brasil, que já oferece uma matriz energética limpa por natureza. Tais investimentos não apenas mitigam os impactos ambientais diretos da computação em nuvem e da Inteligência Artificial, mas também estabelecem um padrão de “baixo carbono por design” para o setor, transformando Data Centers em ativos sustentáveis e competitivos no mercado global.
Essa vantagem competitiva permite que o Brasil não apenas atenda à sua própria demanda crescente, mas também se torne um exportador de sustentabilidade para o mercado global. Ao integrar a infraestrutura de fibra óptica com a abundância de recursos naturais, o país tem o potencial de atrair investimentos internacionais que buscam mitigar os danos ambientais do treinamento de Inteligência Artificial. Assim, a matriz energética brasileira deixa de ser apenas uma questão de segurança nacional para se tornar a base estruturante de uma economia digital que respeita os limites termodinâmicos do planeta.
Os desafios materiais na manutenção dos centros de dados são significativos, especialmente considerando que os players globais que dominam o mercado de armazenamento em nuvem e IA, majoritariamente sediados nos Estados Unidos, já enfrentam problemas de escassez de recursos naturais em seus principais pólos de Data Centers. Um exemplo contundente é o deserto de Nevada, nos EUA. A instalação de grandes centros de dados de Big Techs (que sustentam o mercado de nuvem e IA) levanta preocupações entre as populações vizinhas, pois o uso intensivo da água do lençol freático por essas instalações agrava a escassez hídrica já enfrentada historicamente por essas comunidades em certas épocas do ano. É inegável que a participação mínima no nível tecnológico mais básico é uma exigência do mundo informatizado para que os indivíduos não sejam marginalizados. Contudo, é fundamental atentar para o custo desse universo virtual, visto que sua aparente imaterialidade esconde uma infraestrutura física que demanda intensivamente energia, água e recursos naturais. Portanto, a análise do avanço tecnológico não deve se restringir à ótica da inovação e da eficiência; ela precisa considerar também seus impactos ambientais e sociais. Torna-se, assim, indispensável a adoção de modelos de desenvolvimento digital que promovam a conciliação entre inclusão, crescimento econômico e responsabilidade ambiental.
Referências
JORNAL NACIONAL. Inteligência artificial: tecnologia demanda geração colossal de energia elétrica; entenda. G1, 24 jan. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/01/24/inteligencia-artificial-tecnologia-demanda-geracao-colossal-de-energia-eletrica-entenda.ghtml. Acesso em: 02 dez. 2025.
BOOM dos data centers em Nevada gera preocupações sobre impactos ambientais. MIT Technology Review Brasil, [S. l.], 15 ago. 2024. Disponível em: https://mittechreview.com.br/boom-data-centers-nevada-impactos-ambientais/. Acesso em: 02 dez. 2025.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (UFU). Cientistas alertam: data centers podem causar crise de água e energia. Uberlândia, 2025. Disponível em: <https://comunica.ufu.br/noticias/2025/09/cientistas-alertam-data-centers-podem-causar-crise-de-agua-e-energia>. Acesso em: 02 dez. 2025.