Por Douglas Alencar (UFPA/CFC-GS) e Andressa Lima (UFPA/CFC-GS)
Nas últimas décadas, o financiamento climático passou a ser importante no que tange as mudanças climáticas, especialmente no contexto das crescentes desigualdades climáticas entre países do Norte e do Sul Global. Para a América Latina, uma região altamente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, mas com capacidade desigual de resposta, compreender como os recursos climáticos internacionais têm sido distribuídos e aplicados é importante para avaliar a efetividade das políticas de transição ecológica. Neste contexto, este texto analisa o volume acumulado de financiamento climático destinado aos países latino-americanos entre 2016 e 2023, bem como sua composição por tipo de intervenção — adaptação, mitigação ou sobreposição entre ambas.

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance.
O gráfico acima apresenta o total de financiamento climático recebido pelos países da América Latina no período de 2016 a 2023, medido em bilhões de dólares (USD). A visualização permite observar a desigualdade na distribuição desses recursos entre os países da região. O Brasil lidera, tendo recebido aproximadamente US$ 18,78 bilhões nesse intervalo de tempo. Em seguida, destacam-se a Colômbia, com US$ 14,23 bilhões, e a Argentina, com US$ 11,87 bilhões.
Além desses três países, México (US$ 10,8 bilhões), Peru (US$ 8,66 bilhões) e Equador (US$ 7,27 bilhões) também figuram entre os recebedores. Outros países latino-americanos, como Bolívia, Colômbia, Panamá, Paraguai e Honduras, receberam valores mais modestos, variando entre US$ 2 e 5 bilhões. Na outra ponta, países como Nicarágua (US$ 1,38 bi), El Salvador (US$ 1,96 bi), Uruguai (US$ 0,08 bi) e Venezuela (US$ 0,05 bi) registram os menores volumes de financiamento climático recebidos no período.

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance.
O segundo gráfico apresenta a composição do financiamento climático recebido pelos países da América Latina entre 2016 e 2023, desagregando os recursos por tipo de intervenção: adaptação, mitigação e sobreposição (projetos que abordam simultaneamente mitigação e adaptação). Essa distinção é importante para compreender as prioridades das estratégias climáticas nos países da região e os padrões de alocação dos financiadores internacionais.
A tendência geral revela que a mitigação — voltada para a redução das emissões de gases de efeito estufa — é a principal finalidade do financiamento climático. O Brasil é exemplo dessa tendência, com US$ 15,8 bilhões destinados exclusivamente à mitigação, o que representa a maior cifra entre todos os países analisados. Outros países que também receberam montantes substanciais para mitigação incluem México (US$ 8,75 bilhões), Colômbia (US$ 11,79 bilhões) e Argentina (US$ 8,11 bilhões).
Em contraste, os valores destinados à adaptação — que busca fortalecer a resiliência dos sistemas humanos e ecológicos aos impactos das mudanças climáticas — são consideravelmente mais baixos na maioria dos países. A Colômbia e o Peru se destacam por receberem quantias mais equilibradas entre adaptação e mitigação, indicando uma abordagem mais integrada. Por outro lado, países como o Brasil, Chile e México concentram-se fortemente na mitigação, com a adaptação recebendo uma fração bem menor dos recursos.
A categoria de sobreposição, embora presente, representa uma parcela menos expressiva dos recursos totais em praticamente todos os países. Isso sugere que ainda há uma baixa implementação de projetos que combinem, de maneira integrada, estratégias de mitigação e adaptação, o que pode refletir tanto limitações técnicas quanto o desenho dos mecanismos de financiamento internacionais.
Diante do panorama apresentado, fica evidente que a maior parte do financiamento climático destinado à América Latina privilegia ações de mitigação, em detrimento de estratégias de adaptação. Embora a redução das emissões de gases de efeito estufa continue sendo uma meta importante para conter o aquecimento global, muitos cientistas e ambientalistas têm alertado que já ultrapassamos pontos críticos de inflexão — os chamados “pontos de não retorno” — em que os impactos das mudanças climáticas se tornam irreversíveis em algumas regiões do planeta. Nesse contexto, limitar os danos já em curso e proteger as populações mais vulneráveis passa a ser uma prioridade tão urgente quanto conter futuras emissões.
A ênfase na mitigação, sem o equilíbrio com ações robustas de adaptação, pode aprofundar desigualdades e deixar países e comunidades latino-americanas ainda mais expostas a eventos extremos, perda de biodiversidade, insegurança alimentar e deslocamentos forçados. Diante disso, é preciso reavaliar os critérios de alocação do financiamento climático internacional, priorizando cada vez mais políticas, projetos e infraestruturas voltadas à adaptação — especialmente em países que enfrentam maiores riscos e têm menor capacidade de resposta.