Financiamento climático no México

Por Douglas Alencar (UFPA/CFC-GS) e Andressa Lima (UFPA/CFC-GS)

Entre 2014 e 2023, o México recebeu volumes significativos de financiamento climático, essenciais para impulsionar ações de mitigação, adaptação e projetos integrados frente aos desafios das mudanças climáticas. Esses recursos, provenientes de diferentes instrumentos financeiros e com grande variação anual, refletem tanto as oportunidades quanto as limitações do acesso a capital para políticas ambientais. A análise de sua evolução no período revela não apenas a predominância de investimentos voltados à mitigação, mas também a forte dependência de empréstimos como principal mecanismo de financiamento, levantando questões sobre a sustentabilidade fiscal e a necessidade de ampliar fontes não reembolsáveis para fortalecer a resiliência climática do país.

Elaboração própria, a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Disponível no Tracker de Financiamento Climático do CFC-GS.

O gráfico acima apresenta o total de financiamento climático recebido pelo México entre 2014 e 2023, em bilhões de dólares constantes de 2023. Observa-se que o volume de recursos variou consideravelmente ao longo do período, com destaque para 2017, quando o país recebeu aproximadamente 2,23 bilhões de dólares — o maior valor da série. Após esse pico, houve uma redução em 2018 (1,58 bilhões) e oscilações nos anos seguintes. Em 2021, ocorreu um novo aumento expressivo, atingindo 1,62 bilhões, seguido por uma queda em 2022 para 0,88 bilhões e uma recuperação parcial em 2023, com 1,13 bilhões. O menor valor registrado foi em 2014, com 0,62 bilhões, enquanto a tendência geral indica alta volatilidade no fluxo anual de recursos climáticos para o país.

Elaboração própria, a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Disponível no Tracker de Financiamento Climático do CFC-GS.

O gráfico acima mostra a distribuição do financiamento climático recebido pelo México entre 2014 e 2023, desagregado por tipo de intervenção: adaptação, mitigação e sobreposição (projetos que combinam ambas as dimensões). A mitigação aparece como a categoria dominante ao longo de todo o período, com destaque para 2017, quando atingiu seu pico de aproximadamente 1,90 bilhão de dólares, seguido por 2018 (1,58 bilhão) e 2023 (1,03 bilhão). A adaptação apresentou crescimento gradual, com valores mais expressivos em 2019 (947 milhões) e 2020 (910 milhões). Já a sobreposição teve participação menor e mais irregular, com aumentos notáveis em 2018 (510 milhões) e 2019 (544 milhões). A série revela que, embora a mitigação concentre a maior parte dos recursos, a adaptação e os projetos integrados ganharam importância relativa em alguns anos, refletindo uma diversificação no uso dos fundos climáticos.

Elaboração própria, a partir de dados do sistema OECD CRS – Climate-related Development Finance. Disponível no Tracker de Financiamento Climático do CFC-GS.

O gráfico acima apresenta o financiamento climático recebido pelo México entre 2014 e 2023, classificado por tipo de instrumento financeiro: empréstimos, doações e participações. Observa-se que os empréstimos dominaram amplamente o fluxo de recursos durante todo o período, representando de 85% a 96% do total anual, com destaque para 2017, quando atingiram 2,11 bilhões de dólares (95% do total), e 2018, com 1,52 bilhão (94%). As doações tiveram participação modesta, variando entre 4% e 13%, com valores mais altos em 2022 (112,5 milhões) e 2023 (128,8 milhões). Já as participações, que representam aportes de capital, foram residuais, aparecendo em poucos anos e sempre com valores inferiores a 1% do total, como em 2015 e 2016. Esses dados indicam que o financiamento climático para o México tem sido majoritariamente estruturado como dívida, o que levanta questões sobre a sustentabilidade financeira e a capacidade de pagamento a longo prazo.

A análise conjunta dos três gráficos revela que o financiamento climático recebido pelo México entre 2014 e 2023 apresentou forte volatilidade, com picos expressivos em 2017 e 2021, e predominância de recursos voltados para mitigação, embora a adaptação e os projetos integrados tenham ganhado relevância em alguns anos. O perfil dos instrumentos financeiros evidência que a maior parte desse financiamento foi concedida na forma de empréstimos, com participação reduzida de doações e quase inexistente de aportes de capital, o que indica uma dependência de mecanismos de dívida para viabilizar ações climáticas.

Apesar da relevância do financiamento climático para países em desenvolvimento como o México, os países desenvolvidos ainda não cumprem plenamente suas metas de doação estabelecidas em acordos internacionais, como a meta anual de mobilizar 100 bilhões de dólares para apoio climático. A insuficiência desses recursos não reembolsáveis limita a capacidade de implementar projetos de grande impacto social e ambiental, especialmente em áreas de adaptação, que são cruciais para proteger comunidades vulneráveis. Ampliar e efetivar as contribuições em forma de doações é fundamental para reduzir a dependência de empréstimos, aliviar pressões fiscais e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, contribuindo de forma mais justa e eficaz para o enfrentamento global das mudanças climáticas.

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