Por Andressa Lima (CFC-GS/UFPA)
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) é uma iniciativa internacional liderada pelo Brasil que busca criar um mecanismo permanente de financiamento para a conservação das florestas tropicais. Lançado oficialmente em novembro de 2025, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, no Pará, o fundo propõe uma nova forma de financiar a proteção ambiental: remunerar os países que mantêm suas florestas preservadas, transformando a conservação em uma atividade economicamente vantajosa.
A proposta começou a ser apresentada pelo governo brasileiro em 2023, durante a COP28, em Dubai, e foi desenvolvida em colaboração com outros países e instituições internacionais. De acordo com a Nota Conceitual 3.0 do TFFF, o objetivo é oferecer financiamento de longo prazo, baseado em resultados, para países que conservam e recuperam suas florestas tropicais e subtropicais úmidas, contribuindo para o enfrentamento das mudanças climáticas e para a proteção da biodiversidade.
Diferentemente dos mecanismos tradicionais de financiamento ambiental, que dependem principalmente de doações, o TFFF foi concebido como um fundo de investimento. Segundo o Ministério da Fazenda, o modelo prevê a captação de recursos no mercado financeiro a custos reduzidos, que serão aplicados em uma carteira diversificada de investimentos com retornos superiores ao custo de captação. A diferença entre os rendimentos e os custos financeiros permitirá remunerar os países pela conservação florestal, ao mesmo tempo em que os investidores recebem retorno sobre o capital aplicado.
A estrutura financeira do TFFF tem como objetivo mobilizar US$ 125 bilhões, sendo US$ 25 bilhões provenientes de governos e outros investidores iniciais e US$ 100 bilhões captados no mercado financeiro. Conforme a Nota Conceitual 3.0, o mecanismo prevê pagamentos indicativos de aproximadamente US$ 4 por hectare de floresta elegível preservada anualmente, sujeitos a critérios de desempenho ambiental. O monitoramento será realizado por meio de imagens de satélite, com padrões de transparência e verificação da cobertura florestal. Os pagamentos poderão sofrer reduções em casos de desmatamento ou degradação.
Outro aspecto importante é a destinação de pelo menos 20% dos pagamentos florestais aos povos indígenas e às comunidades locais, reconhecendo seu papel na proteção dos territórios e na conservação dos ecossistemas. O fundo também pretende complementar os mecanismos de financiamento ambiental existentes, sem substituir iniciativas como o REDD+ ou competir com o mercado de créditos de carbono.
O que avançou desde a COP30?
Desde seu lançamento na COP30, o TFFF tem avançado na mobilização de recursos internacionais e na definição de sua estrutura de funcionamento. Segundo reportagem da Revista Amazônia, publicada em 10 de agosto de 2026, o fundo já reunia aproximadamente US$ 6,7 bilhões em aportes anunciados, valor equivalente a cerca de dois terços da meta inicial de US$ 10 bilhões estabelecida pelo governo brasileiro para o primeiro ano do mecanismo.
De acordo com a publicação, a informação foi apresentada pelo assessor especial do Ministério da Fazenda, Rafael Dubeux, durante um evento da SP Climate Week, em São Paulo. Brasil e Indonésia anunciaram aportes de US$ 1 bilhão cada, enquanto países como Noruega, Alemanha e França também assumiram compromissos financeiros. Paralelamente, o governo brasileiro manteve negociações com outras nações interessadas em participar do fundo, incluindo China, Japão, Canadá, Reino Unido, Países Baixos e Coreia do Sul.
Além dos compromissos financeiros, o período posterior à COP30 foi marcado por avanços institucionais. Conforme destacou a Revista Amazônia, a governança do TFFF passou a contar com a vinculação ao Banco Mundial, buscando oferecer maior credibilidade e segurança ao mecanismo. A estrutura financeira também foi formalmente sediada em Luxemburgo, escolhido por apresentar condições consideradas adequadas para a gestão dos investimentos e a participação de diferentes governos.
Apesar desses avanços, a implementação do fundo ainda enfrenta desafios técnicos e operacionais. Segundo Rafael Dubeux, citado pela Revista Amazônia, algumas negociações dependem da definição sobre o tratamento contábil e orçamentário dos aportes, especialmente quanto à classificação dos recursos como empréstimos ou investimentos. Essas questões são importantes para viabilizar a participação de novos países e consolidar a estrutura financeira do mecanismo.
Outro marco importante ocorreu com a Declaração de Lançamento do TFFF, adotada em Belém. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o documento recebeu o apoio de 67 países e da União Europeia, abrangendo países responsáveis por aproximadamente 90% das florestas tropicais localizadas em nações em desenvolvimento. Esse apoio demonstra a dimensão internacional alcançada pela iniciativa e reforça a importância da cooperação entre países para ampliar o financiamento da conservação florestal.
Novos aportes reforçam o financiamento do TFFF
Mais recentemente, o TFFF recebeu novos compromissos internacionais. Segundo nota oficial do Ministério das Relações Exteriores, publicada em 26 de outubro de 2026, o governo brasileiro recebeu o anúncio dos Países Baixos de investir US$ 500 milhões no fundo. O compromisso ocorreu um mês após o Reino Unido anunciar a intenção de investir 400 milhões de libras esterlinas, aproximadamente US$ 540 milhões. Com esses anúncios, o total de investimentos prometidos ao TFFF chegou a US$ 7,8 bilhões, aproximando o mecanismo de sua meta inicial de US$ 10 bilhões.
O anúncio dos Países Baixos ocorreu um dia após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e representa mais um passo na mobilização internacional de recursos para a iniciativa liderada pelo Brasil. Segundo reportagem publicada pela revista Veja, o compromisso de até US$ 500 milhões deverá ser distribuído ao longo de dez anos e foi comunicado ao Parlamento holandês pelo ministro de Comércio Exterior e Cooperação para o Desenvolvimento, Sjoerd Sjoerdsma.
É importante destacar que os valores anunciados representam compromissos de investimento, e não recursos imediatamente disponíveis. O aporte dos Países Baixos ainda depende de condições relacionadas à estruturação do fundo, com expectativa de formalização durante a COP31, prevista para novembro de 2026, na Turquia. A entrada em operação do mecanismo, por sua vez, está prevista para meados de 2027.
Com os novos compromissos, restam US$ 2,2 bilhões para que o TFFF alcance sua meta inicial de captação. Esse avanço é especialmente importante porque, segundo a Veja, a Noruega condicionou a liberação de seu aporte de aproximadamente US$ 3 bilhões ao cumprimento da meta de US$ 10 bilhões até o final de 2026.
Dessa forma, quase um ano após seu lançamento na COP30, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre apresenta avanços na captação de recursos, no apoio internacional e na consolidação de sua estrutura institucional. Entretanto, sua efetiva implementação ainda depende da formalização dos compromissos financeiros e da conclusão das etapas operacionais. Com a aproximação da COP31, o principal desafio será transformar os anúncios de investimento em recursos capazes de sustentar, no longo prazo, a conservação das florestas tropicais e o desenvolvimento sustentável dos países que as preservam.
Referências
Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Nota Conceitual 3.0: Um mecanismo de financiamento inovador para promover a conservação florestal a longo prazo e em escala. 2025. Documento disponibilizado para consulta.
Ministério da Fazenda. Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Governo Federal. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/transformacao-ecologica/programas-em-destaque/fundo-florestas-tropicais
SANTOS, Natália. Fundo da COP30 reúne US$ 6,7 bilhões para florestas tropicais. Revista Amazônia, 10 ago. 2026. Disponível em: https://revistaamazonia.com.br/fundo-cop30-us-67-bilhoes-florestas-tropicais/
FERRAZ, Carolina. Holanda anuncia US$ 500 milhões para fundo de florestas após reeleição de Lula. Veja, 26 out. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/holanda-anuncia-us-500-milhoes-para-fundo-de-florestas-apos-reeleicao-de-lula/
Ministério das Relações Exteriores. Anúncios de investimento dos Países Baixos e do Reino Unido no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Nota à Imprensa nº 326, 26 out. 2026.