O Sul Global e a Transição Verde: o que Esperar da COP 30 em Belém

Por Yandra França (UFPA-CFC/GS)

Estamos a menos de 15 dias para a Conferência das Nações Unidas sobre as mudanças Climáticas, a COP 30, em Belém; esta que em gênesis já é uma edição histórica. Pois, inaugura o coração da Amazônia – maior bioma tropical do planeta- como palco das negociações climáticas. Tradicionalmente, as conferências foram dominadas pelos países do Norte Global, que detêm o poder econômico, político e diplomático. No entanto, pela primeira vez podemos ver a narrativa ser alterada: Países da América Latina, Sudeste Asiático e África querem mostrar que possuem recursos naturais, humanos e culturais capazes de liderar uma transição ecológica. Colocando então, o Sul Global como centro da agenda da economia verde.

O principal negociador de Gambia, Malang Sambou Manneh, recentemente em entrevista à IPS afirmou que essa COP ofereceria uma oportunidade única de reequilibrar a liderança climática mundial; para ele: “Esta COP não pode ficar envolta em vagueza. Há muito em jogo”. Além disso, Sambou descreveu a diferença dessa COP para as demais, exatamente pelo posicionamento dos países sulistas do globo nos assuntos referentes ao desafio monumental do financiamento climático, e os combustíveis fosseis. Paralelo a isso, o negociador argumentou sobre as dificuldades referentes a transição verde para essas nações: “Os países em desenvolvimento também começaram a descobrir seu petróleo e gás, mas não devem tocá-los para acelerar seu próprio desenvolvimento e, em vez disso, devem passar às energias renováveis. É uma situação complexa”.

Há expectativa também, quanto ao lançamento do “Roteiro de Baku em Belém” que conecta a COP29 com a deste ano, com a meta de US$1,3 trilhão por ano, a nova meta visa mobilizar recursos financeiros para países em desenvolvimento. Observamos também, o grande empenho desses países em cumprir suas metas climáticas; enquanto, países europeus e os Estados Unidos continuam omissos aos seus respectivos compromissos. Em outubro, Brasília sediou as reuniões preparatórias para a Conferência das Nações Unidas, na ocasião André Guimarães – Diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia- afirmou: “Estamos diante do momento do Sul Global. É o Sul Global que tem que direcionar o planeta. O Sul Global tem que definir as prioridades. A Europa se absteve de participar até agora. Estamos aqui há menos de 30 dias da COP30, a Europa não se manifestou, não apresentou NDC. Os Estados Unidos, outro país importante do Norte Global, já anunciou sua saída do acordo de Paris. Então, temos um momento agora que o Sul Global tem que trabalhar”, o que fortifica a tese de que os países do sul estarão em centro nessa conferência.  Ouso dizer então, que países como Índia -mesmo que não tendo entregue suas NDCs,e um dos maiores poluentes do planeta-; China (que vem superado expectativas de contribuição ao meio ambiente); e Suriname (que recentemente solicitou doações de países desenvolvidos para ter espaço de investimento em ações contra a crise climática) serão grandes nomes nessa edição da Conferência.

Ademais, uma certeza é legitima: Essa edição será financeira, assim como ocorreu em Baku. Pois, o financiamento climático ainda é um entrave; e é nesse cenário que os países emergentes tendem a conseguir se posicionar, e finalmente, sair do lugar de dependentes para líderes do novo modelo de desenvolvimento. É claro que, esse caminho é turbulento e complexo; já que, conflitos de terra, assimetria de poder, e infraestrutura limitada ainda são realidade em muitos desses Estados. Para nós, resta desejar que o panorama positivo se concretize, afastando as tendencias de greenwashing do evento; o posicionamento dos territórios emergentes será mais que decisivo para que essa COP seja muito mais que uma vitrine verde; tendo então, avanços significativos na transição verde mundial, liderada pelo hemisfério sul do globo.

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