Porque o financiamento climático virou prioridade antes da COP 30 em Belém?

Por Alcilene Farias (CFC-GS/ UFPA)

Diante da crescente urgência da mobilização de recursos para enfrentar a crise climática global, as discussões sobre financiamento climático que antecederam a COP30 em Belém tornaram-se prioridade. Durante a COP29, em Baku, foi estabelecido o compromisso de ampliar os recursos destinados aos países em desenvolvimento para US$ 300 bilhões anuais até 2035, além da meta de mobilizar até US$ 1,3 trilhão por ano para ações climáticas no mesmo período (UNFCCC, 2024; UNFCCC, 2025). Como país anfitrião, o Brasil buscou fortalecer o diálogo entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, defendendo mecanismos capazes de ampliar o acesso ao financiamento climático e acelerar a implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

Nesse contexto, ganhou destaque o chamado Mapa do Caminho de Baku a Belém (Baku to Belém Roadmap), iniciativa voltada à construção de caminhos para ampliar os fluxos financeiros destinados à ação climática e apoiar trajetórias de desenvolvimento resilientes e de baixa emissão de carbono. A proposta surgiu do reconhecimento de que os recursos atualmente disponíveis são insuficientes para que os países mais vulneráveis implementem políticas de mitigação, adaptação e transição energética. Por esse motivo, o Mapa do Caminho procurou ir além do financiamento público tradicional, buscando ampliar a participação de bancos multilaterais de desenvolvimento, investidores privados, fundos climáticos internacionais, entre outros. Segundo o relatório Baku to Belém Roadmap to 1.3T, publicado pela UNFCCC, a ampliação de instrumentos como financiamentos concessionais, doações, alívio da dívida e mecanismos de redução de risco é fundamental para aumentar os fluxos de financiamento climático destinados aos países em desenvolvimento (UNFCCC, 2025).

A presidência brasileira da COP30 buscou impulsionar discussões sobre a transição energética global por meio da proposta de um roteiro para uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis. Entretanto, as negociações evidenciaram importantes obstáculos geopolíticos. A ausência de consenso entre os países impediu a inclusão de compromissos mais robustos sobre combustíveis fósseis no acordo final da conferência, refletindo divergências entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e a resistência de importantes produtores de petróleo às propostas de aceleração da transição energética (UNFCCC, 2025).

Nesse cenário, a realização da COP30 em Belém assumiu um significado estratégico. Pela primeira vez, uma Conferência das Partes foi realizada no coração da maior floresta tropical do planeta, reforçando a necessidade de integrar a proteção das florestas às estratégias globais de enfrentamento das mudanças climáticas. A Amazônia passou a ser vista não apenas como um espaço de conservação ambiental, mas também como um elemento fundamental para o desenvolvimento sustentável e para a construção de uma economia de baixo carbono. Nesse sentido, o governo brasileiro destacou temas como combate ao desmatamento, bioeconomia, desenvolvimento sustentável e fortalecimento dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A proteção das florestas tropicais e a transição energética foram apresentadas como prioridades centrais da agenda brasileira para a COP30 (COP30 Brasil, 2025).

Logo, a realização da COP30 em Belém reforçou o protagonismo do Brasil nas negociações climáticas internacionais e colocou a Amazônia no centro do debate global. A região ganhou destaque devido à sua importância para a conservação da biodiversidade, para o desenvolvimento de estratégias voltadas ao combate ao desmatamento, à promoção da bioeconomia e à valorização dos povos indígenas e comunidades tradicionais.  Entretanto, as discussões realizadas antes e durante a COP30 também evidenciaram os limites da governança climática internacional. Embora tenham sido anunciadas metas ambiciosas de financiamento, persistem incertezas sobre a origem dos recursos e sobre o comprometimento efetivo dos países mais desenvolvidos com sua implementação. Além disso, as dificuldades de avançar em temas como a redução da dependência dos combustíveis fósseis demonstram que as negociações climáticas continuam fortemente influenciadas por interesses econômicos e geopolíticos. Dessa forma, a COP30 representou um avanço importante ao fortalecer o debate sobre financiamento climático e ampliar a visibilidade da Amazônia na agenda internacional. No entanto, a efetividade dessas iniciativas dependerá da capacidade dos países de transformar os compromissos assumidos em ações concretas, garantindo que os recursos prometidos sejam efetivamente mobilizados e direcionados para a implementação das metas climáticas.

Referências

BRASIL. Presidência da COP30. COP30 Brasil: Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Brasília: Governo Federal, 2025. Disponível em: https://cop30.br/pt-br. Acesso em: 6 jun. 2026.

UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). Report of the Conference of the Parties serving as the meeting of the Parties to the Paris Agreement on its sixth session, held in Baku. Bonn: UNFCCC, 2024.

UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). Report on the Baku to Belém Roadmap to 1.3T. Bonn: UNFCCC, 2025. Disponível em: https://unfccc.int/sites/default/files/resource/Relatorio_Roadmap_COP29_COP30_EN_final.pdf. Acesso em: 6 jun. 2026.

UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). COP30 Presidency releases executive report and outlines next steps to accelerate global climate action. Bonn: UNFCCC, 2025. Disponível em: https://unfccc.int/news/cop30-presidency-releases-executive-report-and-outlines-next-steps-to-accelerate-global-climate. Acesso em: 6 jun. 2026. 

plugins premium WordPress