Rumo à COP31: o que aconteceu com as promessas da COP30?
Por Andressa Lima (CFC-GS/UFPA) A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, em novembro de 2025, representou um momento importante para a agenda climática internacional. Em um cenário marcado pelo agravamento das mudanças climáticas e pelas desigualdades econômicas globais, a conferência reforçou compromissos relacionados ao financiamento climático, à adaptação e à transição para uma economia de baixo carbono. Entretanto, com a aproximação da COP31, prevista para novembro de 2026, em Antália, na Turquia, torna-se necessário avaliar os avanços alcançados desde a conferência de Belém, especialmente no que diz respeito à implementação dos compromissos assumidos e à transformação das metas anunciadas em ações concretas. Segundo a Presidência da COP30 (2026a), a conferência foi concluída com a adoção de 56 decisões consensuais, abrangendo áreas como financiamento climático, mitigação, adaptação, transição justa, tecnologia, gênero e perdas e danos. Entre os principais resultados está a Decisão Mutirão, que estabeleceu o Acelerador Global de Implementação e a Missão Belém para 1,5°C, mecanismos destinados a acelerar a implementação dos compromissos climáticos. A decisão também solicitou a triplicação do financiamento para adaptação até 2035 e reconheceu formalmente o Mapa do Caminho de Baku a Belém rumo a US$ 1,3 trilhão. No campo institucional, a COP30 estabeleceu um novo Programa de Trabalho sobre Financiamento Climático, vinculado ao Artigo 9 do Acordo de Paris, que trata das responsabilidades de financiamento dos países desenvolvidos. Também foi criado o Diálogo de Veredas, voltado ao alinhamento dos fluxos financeiros com trajetórias de desenvolvimento de baixas emissões e resilientes ao clima. Na adaptação, foram adotados os Indicadores de Adaptação de Belém, destinados a apoiar o acompanhamento das ações nacionais. Já na transição justa, a conferência estabeleceu um quadro de cooperação internacional, assistência técnica e capacitação, reforçando a articulação entre ação climática, desenvolvimento sustentável e inclusão social. Apesar desses avanços, a COP30 não conseguiu estabelecer um roteiro formal e consensual para o afastamento dos combustíveis fósseis. Conforme destacou a ONU News (2025), a ausência desse compromisso no texto final evidenciou as divergências entre os países sobre os caminhos da transição energética, demonstrando que os avanços institucionais não eliminam os obstáculos políticos à implementação dos objetivos climáticos. Uma das principais iniciativas para enfrentar os desafios financeiros é o Mapa do Caminho de Baku a Belém, desenvolvido pelas presidências da COP29 e da COP30. O documento apresenta cinco frentes de ação: ampliação das doações e do financiamento concessional, sustentabilidade da dívida e espaço fiscal, mobilização do capital privado, fortalecimento das capacidades institucionais e reformulação das estruturas financeiras internacionais. Segundo o relatório Baku to Belém Roadmap to 1.3T (2025), os fluxos externos de financiamento climático para países em desenvolvimento foram estimados em US$ 196 bilhões em 2023. Alcançar US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 exigirá, portanto, multiplicar esse volume por mais de seis vezes. O relatório também evidencia a importância do financiamento público: aproximadamente 78% dos fluxos externos identificados eram provenientes de fontes públicas, enquanto apenas 22% correspondiam a recursos privados. Além disso, 64% dos recursos foram direcionados à mitigação, 19% à adaptação e 17% a atividades que combinavam ambas as finalidades. Esses dados ressaltam a necessidade de ampliar o financiamento e melhorar sua distribuição, especialmente diante das restrições fiscais e dos elevados custos de capital enfrentados pelos países do Sul Global. Em julho de 2026, a Presidência da COP30 (2026b) informou que a implementação do Mapa de Baku a Belém avançava para uma etapa de fortalecimento das bases de dados, coordenação institucional e desenvolvimento de mecanismos de monitoramento. A expectativa é apresentar na COP31 uma primeira atualização baseada em progressos mensuráveis. Contudo, essas iniciativas ainda precisam ser acompanhadas por evidências de ampliação efetiva dos recursos disponíveis. No Brasil, algumas iniciativas buscam transformar essa agenda em investimentos. Segundo reportagem de Ana Teresa Brasil (2026), publicada no portal Amazônia na COP30, do movimento Ciência e Vozes da Amazônia, vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), Lidiane Rocha de Oliveira Melo, representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), destacou uma iniciativa que prevê aproximadamente R$ 2 bilhões em investimentos para infraestrutura na Amazônia, com potencial para mobilizar recursos adicionais destinados à bioeconomia e ao turismo sustentável. A iniciativa, ainda em andamento, evidencia a importância dos instrumentos públicos na mobilização de investimentos privados. Na mesma reportagem, Bruna Cerqueira, coordenadora-geral da Agenda de Ação da Presidência da COP30, ressaltou a necessidade de mecanismos permanentes de acompanhamento dos compromissos assumidos, garantindo a continuidade das ações entre as conferências climáticas. As dificuldades de mobilização financeira também aparecem em outras regiões vulneráveis. Segundo Peter Hobson, em reportagem da Reuters (2026), o Fundo de Resiliência do Pacífico recebeu aproximadamente US$ 15 milhões em novos compromissos de doação em outubro de 2026. Entretanto, o total comprometido permanecia abaixo de US$ 200 milhões, distante da meta regional de US$ 500 milhões prevista para depois da COP31. Embora independente da meta global, o caso ilustra os desafios para financiar projetos locais de adaptação. Às vésperas da COP31, persistem ainda obstáculos geopolíticos. Em entrevista à revista Exame (2026), Carlos Lopes, enviado especial da COP30 para a África, manifestou expectativas muito baixas em relação à conferência na Turquia, destacando a continuidade das tensões internacionais que marcaram as negociações em Belém. Dessa forma, a COP30 deixou avanços institucionais importantes, mas sua efetividade dependerá da implementação dos compromissos assumidos. O desafio da COP31 será demonstrar que as metas financeiras podem se transformar em recursos efetivos, previsíveis e acessíveis, capazes de apoiar a transição climática sem aprofundar as desigualdades econômicas que caracterizam o Sul Global. Referências LIMA, Ana Teresa. O que a COP 30 levará para Antália, na Turquia, sede da COP 31? Amazônia na COP30, Universidade Federal do Pará, 22 set. 2026. Disponível em: https://amazonianacop.ufpa.br/2026/09/22/o-que-a-cop-30-levara-para-antalia-na-turquia-sede-da-cop-31/ EXAME. ‘Expectativas muito baixas’, diz enviado especial da COP30 para a África sobre COP31 na Turquia. 2026. Disponível em: https://exame.com/esg/expectativas-muito-baixas-diz-enviado-especial-da-cop30-para-a-africa-sobre-cop31-na-turquia/. HOBSON, Peter. Pacific’s new climate fund gets $15 million boost but remains far below target. Reuters, 7 out. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/cop/pacifics-new-climate-fund-gets-15-million-boost-remains-far-below-target-2026-10-07/. ONU NEWS. Belém COP30 delivers climate finance boost and a pledge to plan fossil