Por Andressa Lima (CFC-GS/UFPA)
Este blog apresenta os principais resultados do Working Paper nº 14 do Climate Finance Center for the Global South (CFC-GS), “O BNDES no financiamento da transição climática brasileira: trajetória, estrutura e distribuição dos recursos“, escrito por Wallace Marcelino Pereira e Ana Clara dos Santos Cabral. O estudo analisa o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento da transição climática no Brasil. Além do volume de recursos, examina como eles se distribuem entre setores e territórios e a crescente importância do Programa Fundo Clima.
A transição para uma economia de baixo carbono exige investimentos altos, de longo prazo e sujeitos a incertezas tecnológicas e regulatórias. Nesse contexto, os bancos de desenvolvimento cumprem um papel relevante ao oferecer financiamento de longo prazo e direcionar recursos para setores estratégicos. No Brasil, o BNDES participa historicamente do financiamento da infraestrutura, da indústria e da modernização produtiva. Com o tempo, passou a incorporar a agenda ambiental e climática em sua atuação, por meio de instrumentos como o Fundo Amazônia, o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e linhas voltadas à eficiência energética, ao saneamento, às florestas, à bioeconomia e à redução de emissões.
Para acompanhar essa evolução, o estudo usa dados do Portal de Dados Abertos do BNDES de 2002 a 2025. No caso do Fundo Clima, o recorte começa em 2013 e vai até 2025. A análise olha para desembolsos e valores contratados e separa o “Financiamento Verde”, que reúne instrumentos ligados diretamente à mitigação e adaptação às mudanças climáticas, eficiência energética, biocombustíveis, florestas e bioeconomia, meio ambiente e saneamento.
Os resultados apontam três movimentos na trajetória recente do BNDES. O primeiro é a expansão entre meados dos anos 2000 e o início da década de 2010, quando o Banco ampliou desembolsos e contratações. Depois de 2014, veio uma forte retração, associada à redução das fontes de financiamento, à devolução de recursos ao Tesouro Nacional e a mudanças institucionais. A partir de 2022, há uma nova fase de recuperação da capacidade de financiamento, mas os volumes reais de 2025 ainda ficam abaixo dos máximos históricos.
É nesse período mais recente que o financiamento climático ganha espaço. A infraestrutura concentrou a maior parcela dos recursos classificados como verdes, seguida pela indústria. Quando os recursos são observados por blocos temáticos, o saneamento aparece como o principal componente no acumulado do período analisado, enquanto as ações relacionadas ao clima e à descarbonização ganharam importância com a expansão recente.
A análise territorial mostra um ponto crítico. Os recursos seguem concentrados nos estados de maior densidade produtiva, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e a Região Sul. No financiamento verde, o Sudeste também predomina. Já florestas e bioeconomia têm distribuição mais ligada à localização dos recursos naturais, com maior presença da Amazônia e do Centro-Oeste. Os resultados mostram, portanto, que diferentes componentes da transição ecológica apresentam geografias distintas, mas que a concentração territorial continua sendo um desafio para ampliar o acesso aos recursos.
O Fundo Clima é o principal destaque do estudo. Sua participação no financiamento verde foi irregular nos primeiros anos, mas ganhou força a partir de 2023. Em 2025, respondeu por cerca de 60% dos desembolsos e das contratações verdes do BNDES. Essa expansão veio com diversificação: cresceram as modalidades de Desenvolvimento Urbano Resiliente, Florestas Nativas e Recursos Hídricos e Indústria Verde, enquanto a Transição Energética, embora ainda líder, perdeu participação relativa. A concentração setorial, no entanto, seguiu elevada. Infraestrutura e indústria somaram cerca de 95,5% dos desembolsos do Fundo Clima em 2025.
Os resultados indicam uma recuperação da capacidade de financiamento do BNDES nos últimos anos, acompanhada pelo aumento da participação da agenda climática em sua atuação. Apesar desse movimento, o estudo identifica desafios relacionados à escala do financiamento verde e à distribuição territorial dos recursos. Os autores destacam ainda a importância do financiamento de longo prazo para viabilizar investimentos associados à transição climática.
Referência
PEREIRA, Wallace Marcelino; CABRAL, Ana Clara dos Santos. O BNDES no financiamento da transição climática brasileira: trajetória, estrutura e distribuição dos recursos. Working Paper, n. 14. Belém: Climate Finance Center for the Global South (CFC-GS), 2026. Disponível em: CFC-GS – Working Paper nº 14.