Tracking Climate Financing #4: Expansão da Linha 5 (Lilás) do Metrô de São Paulo e o Financiamento Climático no Transporte Urbano

Por Andressa Lima (CFC-GS/UFPA)

A expansão da Linha 5 (Lilás) do Metrô de São Paulo é um projeto de infraestrutura de transporte urbano voltado à ampliação da rede metroviária e à melhoria da mobilidade na Região Metropolitana de São Paulo. A Linha 5 foi inaugurada originalmente em 2002, operando entre Capão Redondo e Largo Treze, ainda desconectada do restante do sistema. O projeto de expansão teve como objetivo integrar plenamente a linha à rede metroferroviária da cidade, ampliando sua conectividade e capacidade de atendimento.


Figura 1: Rede de metrô SPMR.

Fonte: Banco Mundial (2021).

A intervenção incluiu obras civis, escavação de túneis, implantação de sistemas elétricos, telecomunicações, controle e sinalização, além da aquisição de 26 novos trens. A implementação foi estruturada em duas fases: a primeira, entre Adolfo Pinheiro e Água Espraiada, com quatro estações e mais de 1.200 metros de túneis, prevista para conclusão em 2010; e a segunda, entre Água Espraiada e Chácara Klabin, com seis novas estações, prevista para entrar em operação em 2012. Ao final, todas as estações da extensão estavam operacionais. O projeto buscou gerar mudanças estruturais no padrão de mobilidade urbana, ampliando a oferta de transporte coletivo de alta capacidade, reduzindo tempos de deslocamento e integrando definitivamente a Linha 5 às demais linhas do sistema metroferroviário, ilustrado na figura 2.

Figura 2: Esquema da extensão da Linha 5

*Nota: Em tom mais claro, as novas estações da extensão da Linha 5. A figura também mostra um segmento da Linha 1 até à estação central de metro Sé, em vez das 23 estações completas.

Fonte: Banco Mundial (2021).

Do ponto de vista financeiro, o custo total originalmente estimado era de US$ 2,516 bilhões, mas o valor revisado e executado alcançou US$ 3,781 bilhões. O financiamento combinou recursos multilaterais e aporte doméstico. O Banco Mundial desembolsou US$ 650,4 milhões. O Banco Interamericano de Desenvolvimento aprovou inicialmente US$ 480,97 milhões, mas desembolsou cerca de US$ 367,1 milhões após revisão. A maior parcela veio do próprio Estado de São Paulo, cuja contribuição foi ampliada para US$ 2,763 bilhões. Ao final, o total executado somou US$ 3,781 bilhões.

No âmbito do CFC-GS, os dados utilizados para identificar o projeto foram extraídos da base de dados da OCDE, que reúne compromissos financeiros reportados por instituições multilaterais e os classifica segundo marcadores de relevância climática. O CFC-GS organiza essas informações para estruturar sua base própria de financiamento climático e acompanhar projetos com componentes relacionados à mitigação ou adaptação.

Na base da OCDE, o projeto aparece como operação aprovada em 2010, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento por meio de instrumento de dívida com recursos de capital ordinário, sem caráter concessional. O setor é classificado como Transporte e Armazenamento, especificamente Transporte ferroviário, e o Brasil é identificado como país de renda média alta. O valor registrado na base é de US$ 480.958.000, classificado como “componentes climáticos”. Esse valor corresponde ao compromisso originalmente reportado com marcador climático e não representa o custo total do projeto nem necessariamente o valor efetivamente desembolsado. Como o orçamento final alcançou US$ 3,781 bilhões e contou com múltiplas fontes, a parcela identificada pelo CFC-GS corresponde apenas a uma fração do investimento total.

No âmbito do financiamento climático, o projeto é enquadrado como uma iniciativa de mitigação no setor de transporte urbano. A lógica climática reside na expansão do transporte ferroviário elétrico de alta capacidade, que tende a substituir deslocamentos realizados por automóveis e ônibus, modos mais intensivos em emissões. De acordo com o relatório de conclusão do Banco Mundial (2021), a operação da Linha 5 ampliada resulta em uma redução média anual estimada de cerca de 122 mil toneladas de CO₂ equivalente, decorrente da substituição de deslocamentos realizados por automóveis e ônibus por viagens no metrô, que apresenta menor intensidade de carbono.

Essa estimativa resulta da comparação entre um cenário com a Linha 5 expandida em operação e um cenário contrafactual no qual os usuários continuariam utilizando predominantemente automóveis e ônibus. Projetando essa economia anual ao longo da vida útil dos ativos, considerada em cerca de 50 anos, a redução acumulada alcança aproximadamente 2,96 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. O relatório também atribui valor econômico a essas emissões evitadas com base no custo social do carbono, estimando benefícios da ordem de US$ 75,6 milhões ao longo do período, o que reforça a dimensão ambiental e econômica do projeto.

Em termos de mobilidade, o projeto alcançou reduções expressivas no tempo de viagem. O trajeto entre Largo Treze e Chácara Klabin foi reduzido de 72 para 26 minutos, e entre Capão Redondo e Sé caiu de 99 para 50 minutos. A integração da Linha 5 com outras linhas estruturantes da rede ampliou a capilaridade do sistema, facilitando o acesso a áreas centrais e a diferentes regiões da cidade com menos baldeações e maior previsibilidade de deslocamento. Os benefícios foram particularmente relevantes para populações de baixa renda na área de influência da linha, ampliando o acesso a empregos, serviços públicos e oportunidades urbanas.

Para o CFC-GS, o caso da Linha 5 do metrô de São Paulo ilustra tanto o potencial transformador do financiamento climático em infraestrutura urbana quanto os desafios de mensuração e atribuição. A base internacional registra compromissos classificados como climáticos, mas não captura automaticamente revisões orçamentárias, desembolsos efetivos ou a participação relativa desses recursos no custo total do projeto. Avaliar a efetividade do financiamento climático exige, portanto, ir além dos valores reportados e analisar seu papel real na viabilização de investimentos e na geração de impactos mensuráveis em mitigação e mobilidade sustentável.

REFERÊNCIAS

Referências

WORLD BANK. Sao Paulo Metro Line 5 Project (P116170): Implementation Completion and Results Report. Washington, DC: World Bank, 2021.

plugins premium WordPress