Por Cláudio Puty (UFPA/CFC-GS)
Muitas avaliações da COP30 em Belém já foram feitas, e parece haver um reconhecimento relativamente amplo de que houve algo importante ali: a presença vibrante da sociedade civil, a força das vozes indígenas, a diversidade social ocupando um espaço democrático, e isso, por si só, não é trivial.
Ainda assim, as decisões ficaram muito aquém do que o planeta precisa. Há, sim, reconhecimento do problema, mas uma timidez desconcertante nas respostas. O caso dos combustíveis fósseis é emblemático, e a adesão insuficiente a metas de financiamento climático na escala necessária, apenas reforça o diagnóstico.
Muita gente argumentará que a COP tem um problema estrutural insolúvel, porque não enfrenta as bases da sociedade industrial, especialmente sua fase hiperfinanceirizada.
Isso é verdade.
Mas, para mim, o problema não é a COP em si, e sim o poder constituinte das instituições e governos que a compõem. A conferência é um espelho político, não um oráculo transformador.
Acredito que, em meio a um cenário global de retrocesso político, autoritarismos crescentes e questionamento da própria ideia de democracia, a existência de um espaço multilateral, legítimo para a imensa maioria dos países (com a importante, e talvez fatal, ausência dos EUA de Trump), é algo a ser valorizado. Em tempos tão sombrios, reunir tanta gente preocupada com o futuro da humanidade (ainda que parte preocupada, sobretudo, com seus lucros) deveria, se não ser celebrado, ao menos ser reconhecido.
Um ponto central para explicar a fragilidade das propostas não é, como alguns sugeriram, o mecanismo de consenso decisório. A questão é outra: a correlação de forças nos grandes emissores. Os EUA não apenas se ausentaram, como trataram a COP como fútil e contraproducente, enquanto aceleram sua verve petroleira e ameaçam intervir militarmente na Venezuela.
A União Europeia, pressionada politicamente e economicamente, chegou a Belém tendo aprovado uma meta climática menos ambiciosa para 2040, reduzindo o objetivo para cerca de 85% de corte em relação a 1990, com possibilidade de compensações externas.
É difícil sustentar a narrativa de liderança climática sob essas condições.
A China e o BAM
A China, hoje maior emissora bruta, merece um capítulo à parte.
Chegou a Belém com uma das maiores delegações nacionais, o que, obviamente, sinaliza o peso político atribuído ao evento.
A equipe foi liderada por Li Gao, vice-ministro do Ministério da Ecologia e Meio Ambiente, figura central da diplomacia climática chinesa. Ao seu lado, atuou de forma destacada Xia Yingxian, negociadora experiente, conhecida por comandar debates sensíveis, sobretudo sobre a linguagem relativa aos combustíveis fósseis.
Já Wang Yi, acadêmico e diplomata com forte influência intelectual na política climática de Pequim, foi a voz responsável por reiterar a mensagem estratégica de que a China “não lideraria sozinha” o aumento da ambição global. Em paralelo, o vice-primeiro-ministro Ding Xuexiang manteve encontros de alto nível com o governo brasileiro antes e durante a conferência, reforçando a dimensão geopolítica da relação e a aposta em cooperação tecnológica e energética.
Apesar dessa presença robusta, a postura chinesa foi deliberadamente cautelosa: construtiva, porém defensiva, buscando garantir flexibilidade doméstica, especialmente no uso continuado do carvão, enquanto projetava liderança tecnológica em solar, eólica, baterias e veículos elétricos.
O debate sobre o Belém Action Mechanism (BAM) foi, talvez, o ponto mais interessante. O mecanismo não entrou formalmente no texto final do “Mutirão Global”, mas foi amplamente discutido, e o G77 + China deixou claro seu apoio. Para Pequim, apoiar o BAM cumpre dois objetivos estratégicos: reforçar a cooperação Sul–Sul e defender uma arquitetura climática baseada em condições habilitadoras, como financiamento, capacitação e transferência tecnológica, e não em obrigações de mitigação impostas a países em desenvolvimento.
Em resumo, a China fez política com o Sul Global, e ficou nisso.
Finanças na encruzilhada
No campo financeiro, onde reside dimensão centro da transição global, os acordos ficaram muito abaixo do necessário.
O TFFF, o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, foi um dos elementos centrais dessa agenda. Proposto pelo governo Lula, ele consolida uma visão diplomática que o Brasil já vinha ensaiando: tratar florestas tropicais como infraestrutura climática global, e não como problema doméstico periférico. É uma iniciativa institucionalmente inovadora, com potencial de reposicionar o país como formulador, e não apenas demandante, de soluções climáticas. Ganhou apoio político, visibilidade internacional e reconhecimento formal no texto final.
Além dele, houve compromissos adicionais de países desenvolvidos para reforçar fundos de adaptação, mitigação, resiliência e transição energética justa, além de aportes pontuais a mecanismos multilaterais já existentes.
Ainda assim, esses anúncios foram fragmentados e muito insuficientes frente à escala da crise climática. O desafio permanece o mesmo: transformar intenção em previsibilidade, volume e permanência. Parte central do chamado roadmap da implementação.
O texto final da COP30 reconhece a necessidade de ampliar o financiamento climático, fortalecer instrumentos em operação e mobilizar recursos compatíveis com a trajetória de 1,5°C. Contudo, evita números, cronogramas, repartição de encargos e distinção entre recursos novos e reetiquetados.
Em síntese, a COP30 foi histórica. Belém ofereceu um cenário potente, simbólico, democrático, mas nossos problemas continuam os mesmos: consensos confortáveis – todos concordam que é preciso mais dinheiro, desde que ninguém tenha de assumir a conta.